RUGENDAS. (Johann Moritz) HABITANTE DE GOYAS, QUADRO A ÓLEO PINTADO SOBRE MADEIRA.

     
 
 

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MANUAL DA MISSA,

Com varias Orações, e offerecido a todo o fiel Christão, para se encommendar cada hum a Deos Nosso Senhor, e accrescentado com o Officio de S. José, e Oração á Senhora da Rocha. LISBOA: Na Impressão de João Nunes Esteves, 1824. Vende-se na loja de João Nunes Esteves, rua do Ouro, N. 144.

De 10x5,5 cm. Com 165, [iii] págs.

Encadernação armoriada de luxo forrada em tecido de tons marfim e bordada a fio dourado e lantejoulas. Pasta anterior com brasão central orlado por cercadura dupla. Cinco pérolas metálicas aplicadas nos quatro cantos e abaixo do brasão, das quais partem ramagens florais estilizadas. Composição emoldurada por cercadura de motivos vegetalistas dourados. Cortes das folhas dourados com padrões vegetalistas gravados.

Profusamente ilustrado com xilogravuras litúrgicas de grande qualidade ocupando quase a página inteira, representando cenas da Missa e devoções eucarísticas. As gravuras apresentam arquitectura sacra (altares, arcadas, colunas) com figuras de anjos, cálices, ostensórios e elementos litúrgicos, executadas com notável detalhe e emolduradas por cercaduras decorativas com motivos vegetalistas.

Impressão sobre papel de qualidade com caracteres redondos e alguns itálicos.

Exemplar com anotações manuscritas a tinta preta contendo o registo completo dos sacramentos da proprietária: nascimento (1 de Setembro de 1952, Lisboa, freguesia de São Sebastião da Pedreira, Maternidade Alfredo da Costa), batismo (1 de Novembro de 1952, Basílica da Estrela) e confirmação (1 de Junho de 1962, Igreja de São Roque, pelo Arcebispo D. Manuel Trindade Salgueiro, titular de Metilene), incluindo uma observação humorística sobre a «alapa» ritual: «Zás 1 grande bofetada (mas nenhuma canelada, yes? só Deus e grande)». O nome completo da proprietária consta como «Ada Maria Arrais Falcão Beja da Costa de Mello e Castro».

Edição raríssima de um manual devocional de bolso impresso por João Nunes Esteves, ausente da BNP, PORBASE e dos principais catálogos nacionais. Os manuais devocionais de bolso, sujeitos a um uso intenso, eram frequentemente descartados quando deteriorados, justificando a sua escasses nos dias de hoje.

A importância desta obra, que testemunha a história devocional dos cultos emergentes a São José e à Senhora da Rocha e a sua conexão à facção miguelista na conturbada década de 1820, combinada com uma encadernação armoriada luxuosa e anotações manuscritas de uma figura da alta sociedade do período do Estado Novo, confere a este exemplar um valor excepcional para coleccionismo bibliófilo e investigação histórica.

Páginas preliminares não numeradas com índice remissivo. O manual organiza-se segundo a estrutura devocional quotidiana: «Devoção para pela manhã» (oração à Santíssima Trindade, Sagrada Família, Saudação a Nossa Senhora com Magnificat, orações ao Anjo da Guarda), secção central para assistir à Missa, orações para antes e depois da Confissão e Sagrada Comunhão, «Modo de visitar a Igreja para se lucrar qualquer Jubileu», actos das cinco virtudes principais. Inclui devoções específicas: Ofício da Puríssima Conceição da Virgem Maria, Novena das Almas, Modo de rezar a Coroa de N. Senhora das Dores, Ladainha, orações a santos (Santa Bárbara contra raios e tempestades, Santo Emígdio, S. Simeão Estelita, S. António, S. Jerónimo, Santo Anastácio Mártir, S. Sebastião, São Francisco de Borja, Santo Amaro, palavras santíssimas contra malefícios diabólicos). Páginas finais com «Officio do Glorioso Patriarcha S. José» (fls. 151-172) e «Jaculatoria a N. Senhora da Conceição da Rocha» (fl. 173), concluindo com índice em três páginas não numeradas.

A devoção josefina, promovida intensamente pelos carmelitas desde o século XV e impulsionada por Santa Teresa de Ávila, culminaria na declaração de São José como Patrono da Igreja Universal por Pio IX em 1870. A inclusão do Ofício de S. José nesta edição, décadas antes da declaração de Pio, coloca-a na vanguarda do movimento devocional que culminaria meio século depois. 

A Oração à Senhora da Rocha refere-se à Nossa Senhora da Conceição da Rocha, descoberta milagrosamente a 31 de Maio de 1822 — apenas dois anos antes desta publicação — numa gruta junto ao Casal da Rocha, vale do rio Jamor, perto de Carnaxide. A imagem foi levada para a Sé de Lisboa por ordem de D. João VI e tornou-se símbolo de esperança durante a crise económica e social. O Infante D. Miguel (depois Rei Miguel I) devotou-se a esta Senhora da Rocha após sobreviver a acidente de carruagem, tornando-a popular entre os miguelistas. A romaria anual em Maio tornou-se uma das mais antigas da Grande Lisboa. A inclusão desta oração tão contemporânea (1822-1824) demonstra que Esteves respondia rapidamente a entusiasmos devocionais e possivelmente procurava o patronato da facção miguelista. 

As anotações manuscritas de Ada Maria transformam este exemplar bibliográfico raro num documento sociológico, revelando que mesmo nos anos 1950, sob a República instaurada em 1910, a elite do Estado Novo mantinha identidade distinta, escolhendo cuidadosamente igrejas prestigiadas para sacramentos (batismo na Basílica da Estrela, confirmação na Igreja de São Roque associada à «procissão da nobreza»), preservando múltiplas linhagens nobres em nomes compostos (Mello e Castro, Falcão, Beja, Costa — casas documentadas desde a Idade Média), e movendo-se em circuitos que incluíam bispos com estatuto de Grandeza. O humor retrospectivo sobre a bofetada ritual demonstra consciência da passagem do tempo, mas sem rejeição: Ada Maria regista a experiência com nostalgia afectuosa, preservando-a em manuscrito cuidadoso décadas depois.

A «alapa» (bofetada ritual) foi codificada no século XIII por Guilherme Durando, Bispo de Mende, na sua obra «Rationale Divinorum Officiorum». Derivada da colée medieval (golpe nas ordenações de cavaleiros), simbolizava exorcismo espiritual,  para que o crismando nunca esquecesse o sacramento, e prontidão para combate espiritual. O bispo aplicava leve bofetada após a crismação, dizendo «Pax tecum». Esta prática vigorou universalmente desde o século XIII até 1971, quando a reforma litúrgica pós-Concílio Vaticano II a substituiu por simples sinal de paz. Uma criança confirmada em 1962 receberia definitivamente a bofetada, tornando o comentário humorístico de Ada («Zás 1 grande bofetada, mas nenhuma canelada, yes?») um dos raros testemunhos pessoais desta tradição abolida.

João Nunes Esteves (fl. 1814 - c. 1840) foi livreiro e impressor lisboeta. Iniciou atividade como mercador de livros na Rua da Glória nº 14 (documentado em 1814-1818), onde vendia obras impressas por terceiros. Estabeleceu-se como impressor nos anos 1820, com oficina na Rua dos Correeiros/Rua do Ouro nº 144, artéria da Baixa Pombalina onde produziu obras de grande diversidade ideológica e temática: literatura devocional (manuais de missa, apocalíptica), documentos constitucionais (Ladainha Constitucional, Constituição do Brasil), jornalismo político (Martelo Politico), poesia ocasional, teatro popular e traduções. A versatilidade editorial reflectia as correntes duais da sociedade portuguesa — piedade católica tradicional e constitucionalismo liberal emergente — imprimindo tanto para liberais como para absolutistas miguelistas, incluindo José Agostinho de Macedo. Em 1832 o negócio surge como 'João Nunes Esteves e Filho', sugerindo continuidade familiar, e a última referência à oficina data de c.1840.

Ada Maria de Melo e Castro (Lisboa, 1952) foi proprietária do presente exemplar, filha de José Guilherme Rato de Melo e Castro e de Ada Maria Ana Pidwell Arrais Falcão Beja da Costa. O seu nome composto preserva quatro linhagens nobres (Mello e Castro, Falcão, Beja, Costa), casas documentadas desde a Idade Média. A expressão «yes?» nas anotações manuscritas explica-se pela ascendência anglo-portuguesa materna da família Pidwell, originária da Cornualha e estabelecida no Alentejo desde meados do século XIX. Foi confirmada pelo Arcebispo D. Manuel Trindade Salgueiro na Igreja de São Roque em 1962.

José Guilherme Rato de Melo e Castro (Covilhã, 1914 – Lisboa, 1972) foi advogado, Governador Civil de Setúbal (1944-1947), deputado da Assembleia Nacional por seis legislaturas (1949-1972), Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (1957-1963) e Presidente da Comissão Executiva da União Nacional (1968-1972). Destacou-se como o mais «liberal» dirigente do partido único do Estado Novo, defendendo publicamente em 1966, perante Salazar, a necessidade da substituição do ditador. Como Provedor da Misericórdia, criou o Totobola (1961) e desenvolveu o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão. Foi responsável pela eleição da «Ala Liberal» nas listas de 1969, grupo que defendia reformas democráticas dentro do regime autoritário.

D. Manuel Trindade Salgueiro (Ílhavo, 1898 – Lisboa, 1965) foi bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, doutorado em Teologia pela Universidade de Estrasburgo (1924). Nomeado bispo auxiliar por Pio XII em 1940 com sede titular em Helenópolis, foi elevado a Arcebispo titular de Metilene em 1949. Conhecido como «Bispo do Mar», abençoava frotas de bacalhoeiros e presidiu à inauguração do navio-hospital Gil Eannes (1955). Representava a aliança entre Igreja, aristocracia e Estado Novo, administrando sacramentos a famílias da elite em igrejas prestigiadas como São Roque. Os bispos detinham automaticamente estatuto de Grandeza, o mais alto escalão da nobreza portuguesa.

Ref.:

Mendes, Zorro. Patriarcado de Lisboa, Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Rocha. [online] 

REIS, Joana (2014). Melo e Castro: O Provedor que Dizia sim à Democracia. Lisboa: Casa das Letras. ISBN 978-972-46-2379-6.


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Referência: 2511SB008
Local: SACO SB264-09


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