Escrita por mandado de ElRei D. Affonso V, sob a direcção scientifica, e segundo as instrucções do illustre Infante D. Henrique, pelo chronista Gomes Eannes de Azurara; fielmente trasladada do manuscrito original contemporaneo, que se conserva na Bibliotheca Real de Pariz, e dada pela primeira vez á luz per diligencia do Visconde da Carreira, Enviado Extraordinario, e Ministro Plenipotenciario de S. Magestade Fidelissima na corte de França; precedida de uma introducção, e illustrada com algumas notas, pelo Visconde de Santarem, Socio da Academia real das Sciencias de Lisboa, e de um grande numero d"Academias e Sociedades sabias em Hespanha, França, Italia, Inglaterra, Hollanda, Suecia, e America, etc.; e seguida d"um glossario das palavras e phrases antiquadas e obsoletas. Pariz. Publicada por J. P. Aillaud. Na Officina Typographica de Fain e Thunot. MDCCCXLI. [1841].
De 31x23,5 cm. Com xxv, [v], 474, [ii] págs. Encadernação da época com lombada em pele, com belos ferros a ouro. Guardas decorativas em papel moirée amarelo.
Ilustrado com um retrato do Infante D. Henrique em policromia, reproduzido a partir da iluminura do códice original, em face da folha de rosto. O retrato representa o Príncipe vestido de luto, com a grande gorra preta e sem insígnias, rodeado por elaborada moldura vegetalista iluminada e acompanhado do seu mote «Talant de bien faire» e das pirâmides heráldicas. Inclui ainda 4 páginas em fac-simile do manuscrito original quatrocentista, reproduzindo a carta dedicatória de Zurara a Rui de Pina, inseridas entre as páginas preliminares e o texto principal.
Impressão de grande qualidade sobre pergaminho, com o texto integralmente enquadrado por elaboradas tarjas ornamentais de motivos vegetalistas e animais fantásticos, característica distintiva da tiragem in-fólio desta edição. Folha de rosto ornamentada com vinheta xilogravada representando uma embarcação.
Exemplar com carimbo oleográfico de posse de António L. de Sampaio na folha de anterrosto e na página 37 e leves manchas de oxidação ao longo do livro, mais acentuadas nas primeiras e últimas páginas. O exemplar digitalizado pela BNP apresenta uma folha em branco seguida ao índice nas páginas em numeração romana, justificando a diferença na paginação.
Edição princeps rara e muito importante da «Crónica do Descobrimento e Conquista de Guiné», publicada em Paris em 1841 sob a direcção científica do Visconde de Santarém e por diligência do Visconde da Carreira. A obra foi impressa pela oficina de Fain e Thunot e publicada pelo editor luso-francês J. P. Aillaud em duas tiragens distintas — a presente, de luxo, em formato in-fólio com tarjas ornamentais e outra em 8.º grande sem elas.
A crónica, redigida entre 1452 e 1453 pelo cronista-mor Gomes Eanes de Zurara por mandado de D. Afonso V, constitui o primeiro relato europeu sobre a exploração da costa ocidental africana para além do Cabo Bojador e o testemunho coevo mais importante sobre os feitos marítimos do Infante D. Henrique. O manuscrito original — um códice iluminado em pergaminho com 319 páginas e 622 colunas, hoje conservado na Bibliothèque nationale de France (Manuscrit Port. 41) — desapareceu de Portugal ainda no século XV, tendo sido provavelmente enviado por D. Afonso V ao seu tio D. Afonso o Magnânimo, rei de Nápoles, entre 1453 e 1457. Após passar por mãos espanholas — pertenceu a Juan Lucas Cortez em 1702 —, o códice acabou por integrar a biblioteca real de Paris em circunstâncias e data desconhecidas. A sua existência foi redescoberta em 1837 pelo lusófilo e bibliotecário francês Ferdinand Denis, que localizou o volume entre os suplementos franceses da biblioteca.
A crónica conheceu mais duas edições posteriores: a de José de Bragança (1937), com grafia actualizada, e a da Agência-Geral do Ultramar, dirigida pelo padre Dias Dinis e precedida de um volume com a vida de Zurara e estudo sobre a sua obra.
Páginas preliminares em numeração romana com introdução do Visconde de Santarém (págs. V–XVIII), na qual se expõe a história do manuscrito, a biografia de Zurara, as circunstâncias da redescoberta e a importância do texto para a história dos descobrimentos; segue-se a tábua dos capítulos (págs. XIX–XXV) e as páginas de fac-simile do manuscrito original. O texto principal, em português arcaico do século XV, divide-se em 97 capítulos que cobrem desde a genealogia e os costumes do Infante D. Henrique até aos feitos dos capitães que navegaram a costa africana: a passagem do Cabo Bojador por Gil Eanes (1434), as expedições ao Rio do Ouro e à Ilha de Arguim, as primeiras capturas de cativos e resgates, a exploração das ilhas atlânticas e as viagens à «terra dos negros» (Guiné). Zurara intercala o relato dos feitos marítimos com reflexões morais, descrições etnográficas e excursos geográficos, incluindo capítulos dedicados ao curso do Nilo e à descrição das ilhas Canárias. A narrativa termina em 1448, tendo o autor tencionado compor um segundo volume, nunca realizado. Nas últimas páginas (465–474), glossário das palavras e expressões obsoletas elaborado por José Inácio Roquete; finalizando a obra com uma folha de erratas.
A publicação de 1841 não foi um mero exercício de erudição bibliográfica. Inseriu-se directamente no diferendo diplomático que opunha Portugal à França pela posse da região de Casamansa (actual Guiné-Bissau), onde a França contestava a prioridade da ocupação portuguesa. Ao editar um texto quatrocentista que documentava em pormenor as etapas dos descobrimentos ao longo da costa africana, o Visconde de Santarém fornecia prova documental da anterioridade portuguesa, complementando a sua «Memória sobre a prioridade dos descobrimentos portuguezes na costa d"Africa occidental», publicada no mesmo ano. A obra destinou-se, assim, tanto à comunidade erudita europeia como aos circuitos diplomáticos.
O Visconde da Carreira, movido pelo desejo de assegurar a máxima fidelidade paleográfica, encarregou-se pessoalmente de copiar o manuscrito original na biblioteca de Paris, tarefa que Santarém descreve na introdução como um «improbo trabalho». A oficina de Fain e Thunot, estabelecida na Rue Racine junto ao Odéon, era uma das mais reputadas de Paris para trabalhos de impressão de luxo. O editor J. P. Aillaud, nascido em Coimbra de família francesa, estabelecera-se em Paris como o principal editor de livros em língua portuguesa na Europa, funcionando como ponto de convergência da actividade editorial da diáspora intelectual portuguesa.
Gomes Eanes de Zurara (ca. 1410 – 1474?) foi cronista-mor do Reino e guarda-mor da Torre do Tombo, cargo que exerceu desde 1451 como sucessor de Fernão Lopes. Encarregado por D. Afonso V de documentar os feitos das navegações henriquinas, concluiu a presente crónica em 18 de Fevereiro de 1453. O seu estilo foi criticado por Damião de Góis como prolixo e cheio de metáforas impróprias do género histórico, mas João de Barros defendeu-o como historiador diligente, afirmando que «se alguma cousa ha bem escripta das chronicas deste reino, é da sua mão». Além desta crónica, redigiu a «Crónica da Tomada de Ceuta» e a «Crónica do Conde D. Pedro de Meneses». A maior parte dos seus escritos permaneceu inédita até ao século XIX.
Manuel Francisco de Barros e Sousa, 2.º Visconde de Santarém (Lisboa, 1791 – Paris, 1856), foi diplomata, historiador e cartógrafo. Exilado em Paris por motivos políticos, dedicou-se à investigação nos arquivos europeus, onde desenvolveu um vasto programa de defesa dos direitos territoriais portugueses por meio da documentação histórica. Foi o autor do termo «cartografia» e publicou, entre outras obras, o «Quadro elementar das relações diplomáticas de Portugal» e a «Memória sobre a prioridade dos descobrimentos portuguezes». A sua introdução à presente edição constitui um dos seus trabalhos mais relevantes na história dos descobrimentos.
Luís António de Abreu e Lima, Visconde da Carreira (?, 1787 – ?, 1871), foi diplomata de carreira que serviu como Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário de Portugal em Paris. Responsável pela transcrição manuscrita do códice original e pelo patrocínio da edição, a sua diligência foi determinante para a publicação desta obra.
José Inácio Roquete (?, 1801 – Paris, 1870) foi filólogo, lexicógrafo e eclesiástico português radicado em Paris, onde colaborou estreitamente com o editor Aillaud. Autor de dicionários e gramáticas de referência, elaborou para esta edição o glossário de termos arcaicos que tornou acessível ao leitor oitocentista a linguagem medieval de Zurara.
Referências:
Catálogo BNP, RES. 380 V.
Catalogue BnF, Manuscrit Port. 41 (códice original).
Inocêncio III, 148-149, n.º 116.
Lupetti, Monica e Guidi, Marco Enrico Luigi. 'The Portuguese Exiles in Paris'. Universidade de Pisa, 2023.
Silva, Leandro Rosa da. Imagens de Exploração e Domínio: Representações da África e africanos sob os olhares de Zurara e Pacheco Pereira. Tese de mestrado. UFRRJ. 2020.
Cortesão, Armando. 'O 2.º Visconde de Santarém, fundador da cartografia científica'. Terra Brasilis (Nova Série), 2020.
Maia, Rita. 'Usos da tradução pelo grupo de emigrados portugueses do editor Aillaud'. ResearchGate, 2016.