RUGENDAS, Maurice. HABITANTE DE GOYAS. Quadro a óleo pintado sobre madeira.

 
 

 
   

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NUNES DE LEÃO, Duarte. DESCRIÇÃO DO REINO DE PORTVGAL.

Por Duarte Nunez do Leão, desembargador da casa da suplicação. Dirigida ao illustrissimo & muito excelente sñor Dom Diogo da Sylva, Duque de Francauilla, Conde de Salinas & Riuadeo, Presidente do conselho da coroa de Portugal. [Vinheta xilografada com o escudo das armas reais de Portugal]. EM LISBOA. Impresso com licença, por Iorge Rodriguez. ANNO. 1610.

In 8º (de 18,5x13,5 cm) com [12], 161 [i. é 162] fólios.

Encadernação da época em pergaminho flexível com título manuscrito na lombada, preservando atilhos. Cortes das folhas carminados. No interior da guarda anterior encontra-se palimpsesto impresso.

Bela impressão sobre papel de linho muito alvo e espesso, adornada com capitulares xilográficas decorativas ao longo do texto. A folha de rosto é ilustrada com uma tarja tipográfica emoldurando o texto, ao centro encontra-se gravado um brasão com as armas reais de Portugal.O último fólio preliminar não numerado apresenta ao centro um medalhão emblemático oval, decorado com uma palmeira e o sol nascente, no campo exterior o mote: 'Omnia Omnibus'.

Espécime bibliográfico de grande raridade.

Exemplar com um ex-libris do século XIX, 'W. E. Frere'. Apresenta grande sonoridade do papel. A folha de rosto e o último fólio encontram-se espelhados nas margens do verso com uma pequena tira de papel.

É de notar o facto deste exemplar apresentar uma correcção manuscrita no título da folha de rosto (na palavra Descrição » Descripção) executada pela mesma mão do exemplar da BNP, logo indicando que os exemplares foram possivelmente todos corrigidos nesta inovação ortográfica adoptada por Duarte Nunes de Leão, porém ainda não consensual na sua época.

Segundo o sobrinho do autor, Gil Nunez do Leão, que submeteu ao Rei a petição para autorizar a publicação da obra, não foi efectuada qualquer alteração ao texto original, ainda que nos últimos anos da sua vida o autor tenha pretendido fazê-lo, o que não aconteceu devido à sua doença. Diz Gil Nunez do Leão no prólogo ao leitor: “Este livro acabou o Doutor meu tio de compor nos termos que que está no ano de 1599, estando neste tempo recolhido na vila de Alverca por causa do mal que nos Deus livre que então houve neste reino”.

Importantissimo subsídio para a historiografia portuguesa, actualmente lida e estudada em teses disponíveis. Aqui, o autor transmite um conjunto alargado de conhecimentos de várias àreas do saber – Direito, Geografia, Sociologia, Economia, História - e a obra aparece-nos redonda e completa sem que pareçam faltar mais capítulos.

O autor começa com a explicação sobre o direito administrativo romano, as divisões e mudanças dos termos e limites dos círculos judiciais e o que se acrescentou posteriormente, quando Portugal se tornou um país soberano.

Segue-se a descrição geográfica das cidades, vilas e rios da Lusitânia. A partir da página 18, o autor apresenta a teoria do direito romano que organiza os “Jurídicos Conventos”, os municípios de Direito do Lácio, os municípios de Direito Itálico, o conceito complexo de Colónia Romana, as várias maneiras em que havia as mesmas colónias e a presença de importantes colónias romanas em Portugal (como por exemplo Beja) das quais o autor comprova a existência através de vestígios epigráficos e arqueológicos.

Apresenta-se a partir do fólio 23 a descrição das serras e montanhas de Portugal, particularizando a Serra de Sintra com toda a sua mitologia ligada aos cultos do Sol e da Lua. Os rios Tejo, Guadiana, Mondego, Zêzere, Lima, Vouga e Douro apresentam descrições individuais e desenvolvidas com os seus afluentes e os locais dos seus cursos.

No fólio 40 são mencionadas as riquezas naturais e as produções em Portugal. Descrimina por região as minas de ouro, prata, jaspe, turquesas e pirites, mas também as pedreiras e em particular as que exportam as pedras das mós dos moinhos para as Índias Ocidentais e Orientais e até mesmo o barro que é exportado pelo bom sabor e cheiro que confere à água armazenada nos potes. Também o sal, o azeite e o vinho são mencionados (fólio 41) como produtos muito apreciados desde a antiguidade clássica, considerando o autor que os vinhos são “de carregação infinita”, isto é, produção ilimitada. Contém capítulos específicos para o mel, a cera, o pescado, os cavalos e o gado em geral. No fólio 68 o autor refere o sabor particular da fruta e da carne dos animais em Portugal.

Por último, e mais curioso, o capítulo das importações que os portugueses faziam e “a razão que se podem chamar suas” às produções das Índias Orientais e Ocidentais, da Etiópia, Arábia, Pérsia, China e Brasil, desde os diamantes, rubis e esmeraldas, até ao almíscar, incenso, cânforas e frutas exóticas de todas as espécies, além do marfim, lacas, anises, pasteis de todas as cores e especiarias em geral.

No sentido da riqueza humana - que existiu e existe em Portugal - o autor traça a biografia dos santos portugueses (começando pelo papa português São Dâmaso), no entanto junta a esta lista “varões ilustres que em todo o tempo teve” de forma a não acontecer (cita o seu sobrinho no Prólogo) o que se passou com Diocleciano que mandou queimar os escritos dos homens pios para que a ignorância acabasse o trabalho que a crueldade não tinha podido.

Por este motivo o autor inclui uma enorme biografia de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires que se estende ao longo de 12 fólios (cerca de 23 páginas). Dom Frei Bartolomeu, contemporâneo do autor, não era santo, mas o autor assim o entendeu e explicou toda a justeza de o incluir como santo. Segue-se outro capítulo dos santos que não sendo portugueses morreram em Portugal.

O penúltimo tema abordado pelo autor (fólio 138) é o das mulheres portuguesas. O autor toma-as num estado de pureza, honestidade, recolhimento e várias outras perfeições valorizadas na época. Depois insiste em escrever mais um capítulo (fólio 144) sobre o valor e o ânimo das mulheres portuguesas, comparando as mulheres de várias regiões de Portugal e dando exemplos individuais de virtude de mulheres portuguesas conhecidas no seu tempo. Acrescenta ainda outro capítulo (fólio 151) com um louvor às mulheres portuguesas na sua habilidade para as letras e artes liberais.

No final da obra (nos últimos 4 fólios) encontra-se um capítulo, que deveria estar, pela lógica, no princípio da obra, falando sobre a génese de Portugal e recorrendo para tal ao próprio Livro do Génesis, intitulado: “de como no princípio, depois do Diluvio, se governou Espanha e como esteve muitos mil anos sem haver Rei nem Monarquia”, recapitulando aqui toda a mitologia egípcia, grega e latina relativa à Península Ibérica. Neste tema menciona que os que vieram primeiro povoar o território: “foram uns que chamaram Túrdulos, outros Turdetanos, Vetones, e Tartéssios que não há saber-se sua origem, nem do tempo em que vieram, nem das marcações certas da terra que habitavam…”

Duarte Nunes de Leão, ou do Leão (Évora, 1530 - Lisboa, 1608)  foi um jurista, linguista e historiador português de origem judaica. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, desempenhando mais tarde o cargo de juiz desembargador da Casa da Suplicação. Defendeu a anexação de Portugal por Castela, mas foi depois mal recompensado pelos governantes filipinos, que lhe moveram ou deixaram mover perseguições, explicáveis pelo antissemitismo da época.

A sua obra cobre fundamentalmente três áreas: o Direito, a História e a Linguística. Nunes de Leão foi o autor, entre muitas obras publicadas e não publicadas, da 'Crónica dos Reis de Portugal, Lvsitani Censvrae in Libellvm de Regvm Portvgaliae Origine', sobre a origem genealógica e a história dos reis de Portugal, na qual analisa várias fontes, referindo e refutando as versões mais hipotéticas da história de Portugal e da 'Origem, e Orthographia da Lingoa Portugueza', obra ainda hoje inovadora.

Publicou estudos pioneiros sobre o nosso idioma e é considerado o fundador dos estudos ortográficos. Sabe-se ainda da existência de outros escritos, nomeadamente nos domínios da lexicologia e da etimologia, que contudo se perderam.

Coligindo as palavras do seu sobrinho, escritas na dedicatória desta obra, Duarte Nunes de Leão não se contentou em ser um dos mais eminentes do seu tempo na área do Direito Civil e Canónico, tendo abraçado outras ciências; foi um notável erudito na história antiga e moderna, sendo por seu engenho e estudo capaz de toda a ciência digna de homem. Assim, Nunes de Leão não somente se dedicou à composição das ordenações e leis do reino de Portugal, com muita satisfação do Rei e por seu mandado, mas também por honra de Portugal escreveu a sua história.

Entre as obras que deixou publicadas encontrava-se esta Descrição do Reino de Portugal, composta nove anos antes da sua morte.

Referências:

Pinto de Matos 372-373; Cunha, X. Impr. deslandesianas 348; Palha 3, 2741; Sabugosa 165; Arouca L 30.

Monteverde (bibliografia de 1912) Refª 3787: “In 4º de xii-162 ff. [...] A folha xii é preenchida apenas com uma marca gravada igual à que tem o frontispício da Orthographia da Lingua Portugueza, pelo mesmo autor, e na última repete o registo do lugar e data da impressão. […] Clássico, primeira edição. Muito rara.”.

Ameal (bibliografia de 1924) Refª 1648: “Livro clássico, interessante e muito apreciado. Edição primitiva, a mais estimada. Os exemplares são hoje em dia muito raros”.

Inocêncio II, 210: ' Duarte Nunes de Leão, Licenciado em Direito Civil e Desembargador da Casa da Suplicação, escritor mui laborioso e aplicado, como se vê pelas muitas obras que compôs, imprimindo algumas em sua vida, e deixando outras ainda inéditas: na reunião de Portugal á coroa de Espanha por morte do cardeal rei abraçou calorosamente os interesses de Filipe II, cujo pretendido direito de sucessão defendeu por escrito contra os que o impugnam. Foi natural de Evora, e faleceu em Lisboa, de idade mui proveta, ao que parece,no anno de 1608'.

 In 8 ° (18.5x13.5 cm). [12], 161 [i.e. is 162] folios.

Contemporary binding in flexible parchment with manuscript title in the spine, preserving ties. Red edges.

Inside the front board is a printed palimpsest.

Beautiful print on very narrow and thick linen paper, adorned with decorative xylographic capitals throughout the text. The title page is illustrated with a typographical stripe framing the text, and in the center is engraved a coat of arms with the real arms of Portugal. The last unlisted preliminary folio presents at the center an emblematic oval medallion, decorated with a palm tree and the sun spring, in the outer field the motto: 'Omnia Omnibus'.

Bibliographical specimen of great rarity.

Copy with a nineteenth-century ex-libris, 'W. E. Frere'. Very sound paper. The title page and the last folio are restored on the edges with a small strip of paper on the verse.

It should be noted that this copy presents a handwritten correction in the title (in the word Descrição »Descripção) made by the same hand of the Portuguese National Library copy, thus indicating that the copies were possibly all corrected in this orthographic innovation adopted by Duarte Nunes de Leão, but still not consensual in his time.

According to the author"s nephew, Gil Nunez de Leão, who submitted the petition to authorize the publication of the work to the King, no change was made to the original text, although in the last years of his life the author intended to do so, which did not happen because of his illness. Gil Nunez of the Lion says in the prologue to the reader: 'This book was finished by my uncle in the terms that is in the year 1599, while he was ill and secluded in the village of Alverca on account of the evil that, God help us, then happened in this Kingdom'.

Very important study for Portuguese historiography, currently read and studied in many available theses. Here, the author conveys a wide range of knowledge from several areas - Law, Geography, Sociology, Economics, History - and the work appears to be complete without lack of more chapters.

The author starts with the explanation of Roman administrative law, the divisions and changes in the terms and limits of judicial circles and what was added later, when Portugal became a sovereign country.

Following it is the geographical description of the cities, towns and rivers of Lusitania. From page 18, the author presents the theory of Roman law, the complex concept of Roman Colony, the various ways in which there were and the presence of important Roman colonies in Portugal (such as Beja) of which the author confirms the existence through epigraphic and archaeological remains.

From folio 23 onwoards, the description of the mountains and mountains of Portugal, particularizing the Serra de Sintra with all its mythology linked to the Sun and Moon cults. The rivers Tejo, Guadiana, Mondego, Zêzere, Lima, Vouga and Douro have individual and developed descriptions with their affluents and the locations of their courses.

In folio 40 are mentioned the natural wealth and the productions in Portugal. It describes the gold, silver, jasper, turquoise and pyrite mines by region, but also the quarries and in particular those that export mill stones to the West and East Indies and even the clay that is exported on account of the good taste and smell that confers to the water stored in the pots. Also salt, olive oil and wine are mentioned (folio 41) as products much appreciated since classical antiquity, considering the author that the wines are 'of infinite load', that is, unlimited production. It contains specific chapters for honey, wax, fish, horses and cattle in general. In folio 68 the author refers to the particular flavor of the fruit and the meat of the animals in Portugal.

Lastly, and more curiously, the chapter on imports that the Portuguese made and 'the reason why they may call theirs' Eastern and Western Indian productions, from Ethiopia, Arabia, Persia, China and Brazil, from diamonds, rubies, and emeralds, even musk, incense, camphor and exotic fruits of all kinds, besides ivory, lacquers, anises, pastels of all colors and spices in general.

In the sense of human wealth - which existed and exists in Portugal - the author traces the biography of the Portuguese saints (beginning with the Portuguese pope São Dâmaso), joining to this list 'illustrious men from all times' in order not to happen (he quotes his nephew in the Prologue), what happened to Diocletian who had the writings of the pious men burned so that ignorance would end the work that the cruelty of the man had not been able to.

For this reason the author includes a huge biography of Friar Bartolomeu dos Mártires that extends over 12 folios (about 23 pages). Friar Bartolomeu, contemporary of the author, was not a saint, but the author included him and explained all the correctness of including him as a saint. Another chapter on the saints who were not Portuguese died in Portugal follows.

The penultimate theme addressed by the author (folio 138) is that of Portuguese women. The author takes them in a state of purity, honesty, recollection and various other perfections valued at the time. Then he insists on writing another chapter (144) about the value and mood of Portuguese women, comparing women from various regions of Portugal and giving individual examples of the virtue of Portuguese women famous at the time. It also adds another chapter (folio 151) with a praise to Portuguese women on their ability for liberal arts and letters.

At the end of the book (in the last four folios) there is a chapter, which should have been, logically, at the beginning of the book, about the genesis of Portugal and referring to the Book of Genesis itself, entitled 'on how at first, after the Flood, Spain ruled itself, and how it was many thousand years without King or Monarchy,' summing up all the Egyptian, Greek and Latin mythology concerning the Iberian Peninsula. In this theme he mentions those who first came to settle the territory: 'Some were called Turduli, other Turdetani, Vettones, and Tartessus with its origins not known, neither of the time in which they came, nor of the certain places of the earth that they inhabited ... '

Duarte Nunes de Leão, (Évora, 1530 - Lisbon, 1608) was a Portuguese jurist, linguist and historian of Jewish origin. He graduated in Law at the University of Coimbra, later serving as judge of the House of Suplication. He defended the annexation of Portugal by Castile, but was later badly compensated by the Philippine rulers, who persecuted him, or let him be persecuted, on account of the feverous anti-Semitism at that time.

His work covers three fundamental areas: Law, History and Linguistics. Nunes de Leão was the author, among many published and unpublished works, of the 'Chronicle of the Kings of Portugal, Lvsitani Censvrae in Libellvm de Regvm Portvgaliae Origine', on the genealogical origin and history of the kings of Portugal, in which he analyzes various sources, referring and refuting the most hypothetical versions of the history of Portugal and also of the 'Origin, and Orthographia of Lingoa Portugueza', still an innovative work on linguistics.

He published pioneering studies on our language and is considered the founder of orthographic studies. He is known to have written other works, especially in the fields of lexicology and etymology, which have however been lost.

Collecting the words of his nephew, written in the dedication of this work, Duarte Nunes de Leão was not content to be one of the most eminent of his time in the area of Civil and Canon Law, having embraced other sciences; was a notable scholar in ancient and modern history, being by his ingenuity and study capable of all science worthy of man. Thus, Nunes de Leão not only devoted himself to the composition of the ordinations and laws of the kingdom of Portugal, with warrant and much satisfaction from the King, but also, for the honor of Portugal, wrote his history.

Among the works he published was this “Descrição do Reino de Portugal”, composed nine years before his death.

References:

Pinto de Matos 372-373; Cunha, X. Impr. Deslandesiana 348; Palha 3, 2741; Sabugosa 165; Arouca L 30.

Monteverde (bibliography of 1912) Ref 3787: 'In 4º of xii-162 ff. [...] Sheet xii is filled only with an engraved mark equal to the one that has the frontispiece of the Orthographia da Lingua Portugueza, by the same author, and in the last one it repeats the record of the place and date of the impression. [...] Classic, first edition. Very rare. '

Ameal (bibliography of 1924) Ref. 1648: 'Classic book, interesting and much appreciated. Primitive edition, the most prized. The copies are nowadays very rare.

' Inocêncio II, 210: 'Duarte Nunes de Leão, Licensed in Civil Law and Judge of the House of Suplication, very laborious and applied writer, as can be seen from the many works he composed, printing some in his life, and leaving others still unpublished: During the subjugation of Portugal under the crown of Spain on the death of the Cardinal King, warmly embraced the interests of Philip II, whose alleged right of succession he defended in writing against those who impugned him. He was born in Evora, and passed away in Lisbon of very old age, apparently in the year of 1608'

Referência: 1609JC004
Local: M-9-C-6


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